4 de nov de 2008

Café da Manhã

Uma vez Thatyana me disse que quando não tomava café em casa, ia de táxi até o Greenwich Village, sentava-se na quarta mesa do lado direito da porta de entrada, e pedia à Betty, garçonete do Baroness Coffee, um bolo melado com suco de frutas. Às vezes escolhia Capuccino no lugar do suco, mas o bolo era sempre o mesmo. Na noite de treze de maio desse ano, sonhou com as ruas estreitas do antigo bairro nova-iorquino. Estava com um casaco vermelho, usava um chapéu redondo e mal conseguia equilibrar-se no chão de pedra de cantaria. Acordou com saudades. Fazia um mês que só tomava café em casa, com pães caseiros e biscoitos de água e sal. Precisava ir ao Village. Em quinze minutos estava atravessando a Houston Street e pediu que o taxista a deixasse ali. Caminhou o resto a pé, sentindo o cheiro da manhã do West Village, e dos papeis dos velhos escritores, que rabiscavam poesias na escadaria de um prédio. Alguns pintores também estavam ali. Reconheceu um deles, que um dia a pintara tomando café no Baroness Coffee. A pintura, Thatyana mandou ao Brasil, para enfeitar o quarto dos pais que moram no Rio de Janeiro. Caminhou um pouco mais, e em alguns minutos estava entrando no seu café predileto. Naquele dia ela não sentou na quarta mesa do lado direito da porta de entrada. Foi ao balcão e percebeu que Betty não estava lá. No lugar dela, um moço alto, cabelo liso caindo na testa, olhos acastanhados e lábios de cetim, colocava algumas xícaras na bandeja. Parou subitamente assim que a viu aproximando-se.

- Betty, não vem? - ela perguntou sentando-se no banco macio do primeiro balcão.
- Não. - respondeu o garçom, com os olhos iluminados - Betty demitiu-se semana passada e eu entrei em seu lugar.
- Oh! Não sabia. Faz tanto tempo que não apareço... Ainda fazem bolo melado? - ele assentiu com a cabeça - Ótimo. Vê-me uma fatia bem pequena e um suco light.

O garçom virou as costas, serviu a segunda mesa, voltou para o balcão e fitou-a discretamente. Que linda era aquela moça. Até então só havia servido beatas, velhos escritores e algumas crianças que pediam chocolates. Mas agora ela estava ali, sentada lindamente no primeiro balcão, com um livro pousado sobre a mão direita, enquanto a esquerda colocava atrás da orelha, alguns fios de cabelo dourado que às vezes caiam em seus olhos azuis.

- Quem é ela? - ele perguntou a Vanessa, outra garçonete.
- Thatyana. Ela é modelo brasileira, mora no Upper East Side e não sei o que vem fazer aqui quase todas as manhãs.
- Ela disse que a tempos não vinha.
- Sim. Mas antes era quase todo o dia.
- E qual o problema dela vir?
- Nenhum. Só não a entendo. Trocaria tudo isso por um piquenique no Central Park ou uma manhã inteira no Café Sabarsky.

Talvez ela não fosse tão rica a ponto de luxos como esse. Por isso preferia tomar café no Village, na companhia marota dos artistas, do conforto de uma boa cafeteria de família. Mas Thatyana era rica. Muito rica. Dava pra notar apenas observando seus modos delicados e finos. Enquanto ia arrumando seu pedido, o garçom a olhava insistentemente. Demorou até que estivesse tudo ajeitado.

- Desculpe a minha demora. - ele falou docemente - Mas são os meus primeiros dias e ainda estou confuso com tudo isso.
- Não se preocupe! Estava tão concentrada na leitura que nem me dei conta do tempo.

Thatyana fechou o livro, colocou-o no balcão e deu dois goles de leve no suco de frutas. O garçom ainda estava ali, olhando-a com olhos de curiosidade. Percebendo os olhares do rapaz, ela levantou os olhos da pequena bandeja desenhada e seus olhos se encontraram. Quem seria aquele novo garçom? Seria ele filho de algum pintor fracassado ou de algum músico de jazz? Teria ele namorada? Porque a olhava tanto? Ela sabia. Mas quis saber ainda mais. Era tão curiosa quanto ele. Pousou o copo de suco no balcão, limpou os lábios e disse:

- Qual é o seu nome?

O garçom sentiu as pernas estremecerem. Só agora havia percebido que estava feito um bobalhão parado na frente dela, olhando-a com curiosidade e admiração espontânea. Depois de alguns segundos ele respondeu sem graça:

- Daniel. Mas por favor, me chame de Dan.
- Prazer, Dan. Sou Thatyana. Thatyana Cristina.

Ambos estenderam as mãos um para o outro e apertaram-nas com força e ternura. Ela, com mais ternura do que força. Ele, devido ao enorme nervosismo que lhe inundara por dentro, com mais força. Enquanto as mãos iam se tocando, o coração de Dan ia mergulhando em um poço de contentamento. O rapaz gostava de apreciar a beleza de perto. E naquela manhã, Dan não só apreciou a beleza de Thatyana, como sentiu, na própria pele, o seu agradável calor.

(continua)

9 comentários:

Bruna Bianconi disse...

quero mais o/
IAJAHUAHAUHAUA

te amo ;@

Pipoca disse...

Olá mais uma vez..
Então.. tem um memê pra ti no meu blog [não me pergunte ao certo oq é isso pq tb não descobri, recebi de uma guria q sempre visita meu blog e to esperando q ela me explique isso, hahahaha]..
Bjks!!!

Ah propósito, o texto é lindo! =')

www.pipocandoporai.blogspot.com

Fabio Bittar disse...

Muito bom. Gostei muito.

Daniel disse...

unn...
me identifiquei com esse Dan

Sergio disse...

Conta mais, conta mais...

Joana disse...

que texto mais delicado...bonito.

Jéssica disse...

Leitura rápida e gostosa. Adorei, adorei, e curiosidade é o que não falta pra saber o resto néam ;P

beigos

BiahH_TrixX disse...

eu adoro historias. terminei a minha na semana passada e agora vu ler a sua e a da outra Bruna.. Huuahsuahs

mas pelo local da sua,acho que vc deveria ler "mentirinhas inocentes",não sei porque mais seu texto me lembrar da historia.=]

Bjokas bo.

Mary West disse...

Ahhhh espero ansiosamente a continuação! :D