08/02/2010

Bucuresti capricios

Foi lá pelo mês de agosto, quando Bucareste chegou aos seus 35 °C em uma tarde lavada de sol, que desembarquei em Henri Coanda. O meu amigo Arsenie já estava me esperando com uma caixa nas mãos e um sorriso bem largo no rosto. Há alguns meses conversávamos pela Internet e ele me contava o quão encantadora era a "Pequena Paris" onde morava desde bebê, quando a mãe brasileira casou-se com um cara romeno bem de vida. "Frumoasa Mea!" ele gritou! Corri para abraçá-lo e quase o fiz derrubar a caixinha que trazia nas mãos. Nos olhamos por alguns minutos, risonhos, felizes, bobos pra ser bem sincera. Eu estava ali, ouvindo o meu amigo me chamando de "minha linda" naquele idioma tão bonito. E ele também era tão bonito (!). Foi como um sonho bem caprichado e talvez realmente fosse.
Saímos do aeroporto em chamas, contentes por estarmos ali, juntos. O ônibus 783 chegou em menos de quinze minutos e lá fomos os dois, com os olhos ainda brilhantes, rumo ao doce que era a capital. No caminho, Arsenie me deu a caixinha que comentei nas primeiras linhas. Estava recheada de chocolates e tinha as cores da bandeira da Romênia, era pintada a mão e escondia um fundo falso pra guardar algum segredo. Nos deliciamos durante os sessenta minutos de viagem e quase não sobrou espaço para a farinha de milho com queijo que a mãe do Arsenie fez para a minha chegada. Seu nome, Regina. Era bonita, morena, nova e perfumada. Um amor de pessoa, brasileira como ela só, ficou o tempo todo me fazendo perguntas: "E a violência? Diminuiu?", "A Dercy ainda não morreu?" "Eu tenho saudades de Ubatuba, acredita?" E ria.
Ficamos muito pouco dentro de casa, apesar de ser uma grande e adorável casa. Arsenie queria me mostrar de tudo um pouco e eu também queria ver. Lembro-me da primeira noite em Bucareste, quando ainda no taxi começamos uma festa ao som de Dragostea Din Tei e Despre Tine, as duas únicas músicas que eu sabia cantar em romeno. Fomos ao Krisal Glam Club, um lugar com boa música e gente boa. Muito parecido com um bar que frequentei ano passado e que hoje está fechado, infelizmente.
Passei quase quinze dias na "Paris" do meu amigo Arsenie e saboreei cada pedacinho daquele sudeste abafado. Fomos ao teatro, alugamos uns filmes do tempo do Edward G. Robinson, fizemos piquenique e ainda tivemos tempo de ler poesias à beira do Rio Dâmbovita, lindos. Mas havia chegado a hora de ir embora. A despedida foi como toda despedida, inevitavelmente triste. Tive vontade de jogar o Arsenie dentro da minha mala (que não era pequena) e trazê-lo comigo para São Paulo. Mas fiquei imaginando a dona Regina louca de saudades do filho bonito e educado que ela teve e achei que seria justo apenas convidá-lo para passar as férias de inverno aqui pro lado de cá.

Ele aceitou o meu convite mas nunca apareceu. E até hoje eu não sei o que guardar no fundo falso da minha caixinha romena...

07/02/2010

O ar da graça

Como é estranho estar aqui. Estou me sentindo uma visita indesejada, que aparece sem avisar, acomoda-se em uma poltrona e fica olhando o redor procurando um motivo pra abrir a boca. Não sei se ainda tenho direito de ter voz nesse lugar. Fiquei tantos dias longe que até sinto corar as minhas bochechas de vergonha por ter fugido como uma covarde. Eu achei que estava tudo bem, que eu tinha um amor e que era feliz. Mais uma vez me iludi com um rostinho bonito, que sabe falar 'eu te amo' e fazer um sexo gostoso. De novo eu apostei tudo o que eu tinha em ter um romance como o dos meus filmes cor-de-rosa e cai do alto do meu torrão de açucar em um tombo, digamos, feio! Depois disso só me lembro de ter chorado o mar inteiro, perdido a fome e a vontade de abrir os meus olhos. Morri de amor e fui pro inferno. Tive o meu coração destruído, fui ofendida, maltradada, suja e voltei com o meu orgulho em frangalhos. Tive que limpar os meus pés, ajeitar os objetos que tirei do lugar e jogar fora os restos de alguma lembrança que rasguei em mil pedaços. É normal ter desses surtos. E mais normal ainda é sair de todo esse drama linda, cheirosa e cheia de vontade de continuar com a festa. É por isso que eu estou aqui hoje, diante das palavras que dão forma a minha nova realidade. Eu estou livre de novo e por mais que eu me sinta uma estranha, ainda tenho a chave e sei que posso entrar.

04/11/2009

"(...) Entre o trem e a plataforma."

Um rebanho de gente. Uma infinidade de corpos diferentes: gordos, magros, altos, baixos, coloridos e alguns transparentes. Ninguém consegue enxergar o chão com tantos pés se arrastando juntos. As pessoas mal conseguem respirar. Sobrevivemos inalando todo o odor trazido pelo vento que o metrô joga violento em nossos rostos. Às vezes conseguimos identificar um perfume de algum conhecido nosso e acredite, no meio de todo aquele caos, nos rendemos à um momento de nostalgia. Nos apaixonamos, choramos inconcientemente ou abrimos um sorriso idiota, que se por ventura alguém enxergar; vai rir também, sem entender. A chegada do metrô é marcada por empurrões que podem ser classificados um por um: Tem aquele empurrão mais tímido, quando nosso colega de amasso vai se infiltrando aos poucos, com delicadeza e aparentando no olhar aquele estresse mais discreto. Tem o empurrão natural, movido ou por extinto ou pelas pessoas que estão atrás, que como um bom conselho, nos faz seguir em frente. E não podemos esquecer do empurrão violento, que nos remete ao mais profundo desprezo, à calorosa raiva e a indignação momentânea (ou eterna) por ter de voltar para casa com uma marca dolorida na pele. Entretanto, apesar de todo transtorno para ir ao trabalho ou para retornar ao meu doce lar, ao menos as minhas viagens são também muito interessantes. Aproveito os minutos nos vagões para apreciar um som sincronizado. Chega de barulho! Canto junto, às vezes... Também me aproveito dos livres minutos para observar algumas linhas de um livro sobre reencarnação. Só observo. Ler não consigo. E faço do tempo um suporte para aconchegar alguns sonhos que no sono cansado da noite não tenho forças para sonhar. De repente estou em lugar nenhum, com céu, pessoas não estressadas, oxigênio e perfume. Lá o tempo passa mais rápido. Um dia inteiro cabe em um único sonho. Dá tempo de contar e ouvir alguns segredos. Fazer uma caminhada sem bruscos passos. Apreciar a beleza daquele lugar inexistente e guardar cada detalhe pra recordar depois, no plano de átomos e vagões. Um dia inteiro se passa em aproximadamente quarenta minutos. Dá tempo de existir, apesar das emoções subjetivas. E quando o sono da viagem é interrompido pela Voz Robótica do maquinista, sinto como se realmente tudo aquilo tivesse acontecido. As experiências do dia se juntam com as experiências do sonho. Deus, como isso é possível? Acabo vivendo duas vezes e termino o dia ainda mais cansada! (...)

17/09/2009

Luz, sem câmera

Minhas dezoito primaveras dariam uma comédia romântica dramática, cheia de ficção e sustos em determinadas cenas da adolescência. O roteiro da minha vida é um mix de todos os gêneros, com trilha sonora de todos os estilos. Tenho em minha história mil personagens, reais e imaginários, importantes e descartáveis. Os de maior destaque são aqueles que eu não canso de admirar. Eles entram em cena quando o cotidiano se torna uma tortura, quando respirar ar natural passa a ser venenoso e é preciso apelar para o lado mais piegas da vida, o clichê de ser salva pelo remédio do amor. As cenas dos beijos, abraços e sorrisos brancos, as melhores de todo o cinema, são sempre as que o diretor corta mais depressa. E até agora não pensei em nada inteligente para escrever a respeito do diretor do movie of my life. Mas deixemo-no de lado por hora (ou pro resto do texto) e vamos aos figurantes, que não são tão especiais quanto os outros personagens, mas são igualmente importantes no decorrer de toda história. Esses levam o sentido de preencher determinado espaço. Mas o mais interessante é que mesmo não despertando sentimentos nem emoções, mesmo na maioria das vezes não sendo visivelmente notados ou sentidos, eles existem, e sabe lá Deus porque, às vezes possuem mais falas e ações no filme do que eu.

17/07/2009

As Poderosas Rainhas

Antes de qualquer coisa, peço que não considerem esse texto uma resenha. Eu nunca escrevi uma por vontade, apesar de já ter lido ótimos livros. Não sei fazer resenhas e acho esse termo um tanto esquisito. Mas hoje o post é sobre um romance que conheci por acaso e me apaixonei a primeira linha. Durante as últimas semanas, além de ter dedicado os meus dias ao trabalho, a família e ao amor, dediquei também algumas horas antes de dormir As Poderosas Rainhas, um livro que me despertou sentimentos, ideias e aflorou como nenhum outro a minha esquecida feminilidade. Até então eu e a minha ignorância jamais tínhamos ouvido falar em Amy Dickinson. Me assustei quando descobri que a autora do meu doce amante é uma jornalista importantíssima dos Estados Unidos, lida por milhões de pessoas no país e no mundo. Ora, como eu saberia? Não sei, mas me senti envergonhada por tê-la conhecido tão tarde. As Poderosas Rainhas não pode ser resumido. Seria um pecado transformá-lo em um rascunho ou simplesmente ignorá-lo. O livro conta uma história de vida, a história da própria Amy Dickinson. Da infância na fazenda ao divórcio repentino. Do abandono do pai à criação de sua filha. É como estar vivendo as lembranças de Amy em tempo real. Visualizando Freeville, o seu eterno lar em detalhes. Esperando ansiosamente pelas surpresas do familiar natal americano. Imaginando o passar das estações, o movimento da vida, dos acontecimentos e da paisagem descrita por ela. "Erro para que vocês não tenham que errar também." Esse é o lema de Amy Dickinson, que agora é para mim um espelho. O exemplo de que é possível superar os problemas (principalmente os que são exclusivamente nossos, meninas) sem borrar a maquiagem. ;)

Para saber mais sobre o livro, ver fotos, vídeos ou ler alguns capítulos, acesse o site: http://www.aspoderosasrainhas.com.br/

19/06/2009

Dias neutros

O vento da chuva está assoprando a minha nuca. Eu me sinto arrepiar por alguns segundos desconcertantes e logo me vem um rosto conhecido nos olhos da mente. Apago as luzes para obter o efeito que mais me fascina em dias neutros como o de hoje. A escuridão do quarto é efêmera. O brilho das luzes vizinhas se apressam em iluminar os pequenos espaços da mesa. Fazem fileiras, fazem festa e se misturam. Mas a festa das pequenas luzes não resiste a melancolia da escuridão e logo todo aquele brilho descansa. Eu adoro esse momento. Sinto os ruídos da rua serem abafados pela minha respiração. Os meus pés não parecem mais tão frios e nem as minhas mãos, que agora estão mais brancas do que quando iluminadas por lâmpadas. Ideias que antes eram tão quentes, esfriam e perdem a consciência. A garganta, que leva sufoco e quase morre doída, coitada, consegue finalmente engolir saliva. Nem o cheiro da fumaça que vem de fora incomoda, apesar dos três espirros que inevitavelmente me escapam. Agora não estou mais vivendo um dia neutro, a noite me salvou. Mas posso falar deles se quiser, ou se eu mesma achar que devo. Eles começam tarde, ainda bem, depois do meio-dia. O sol já está amolecendo a vida lá fora e a minha, que ainda nem bem acordou, também se derrete tarde a dentro. A inquietação que se apodera de mim seria bem-vinda se conseguisse vencer o tédio. Mas a cama me chama, o livro que ganhei de uma desconhecida também. Em poucos minutos estou longe da história, com os olhos vagando na órbita, sem esperança, sem força, sem vida. É um dos momentos mais difíceis do dia, que parece não deixar que as horas passem como deve ser. Eu desejo que a Lua venha, mesmo que escondida entre algumas nuvens pretas. E só quando o quarto se pinta de alaranjado, sinto que valeu a pena ter passado por tudo aquilo. Dias neutros são sofridos, mas existem dias piores, por isso os considero neutros. Não acrescentam nada, nem me tiram valor algum. Não me fazem crescer como humana que sou, nem me diminuem a um ser estranhamente evoluído. Esses são os meus dias neutros. E hoje, por muito pouco, não me deixo dormir convicta de que havia tido um dia assim. Até escrevi isso no início dessas linhas. Peço desculpas, menti. Mas encerro esse pensamento corrigindo o meu deslize e afirmando com notável alegria que a noite ainda não se esqueceu de mim.

16/06/2009

Metrô

Era um feriado de plástico, desses que a gente descarta o significado pra se aproveitar da existência e das oportunidades que temos graças a eles. Naquele dia eu tive a chance de namorar a estação do metrô. Beijei os detalhes arquitetônicos com os meus olhos, que bem poderiam ser da mesma cor que as luzes que iluminam a plataforma. Respirei profundamente aquele ar, como se nunca mais fosse respirar. E de certa forma, jamais voltei a senti-lo tão livre de perfumes e suor. Sentei-me na cadeira azul reservada para os obesos, mas que aconchega os casais que querem estar mais próximos. A ausência da pressa me sensibiliza um pouco. Em dias comuns, entraria no primeiro metrô que aparecesse. Cheio ou vazio, do modelo novo ou velho. Não teria tempo nem de observar as pessoas, só de sentir o calor que elas me passam quando estão inevitavelmente perto uma das outras. Em dias comuns, os sentidos são castigados. As mãos não tem saída: são obrigadas a tatear o que não precisariam. Os olhos, mesmo fechados, ainda conseguem enxergar. Os ouvidos são surrados pelas notas, pelas vozes e pelas conversas paralelas. E o nariz, sufocado de odor, só não faz respirar. Mas nos feriados de plástico é tudo bem diferente. Naquele dia, deixei passar alguns metrôs pela plataforma até finalmente embarcar. O ar resfriado arrepiou-me, escolhi novamente a cadeira azul. O metrô partiu em um disparo e pela primeira vez consegui ouvir o som que ele provoca sob os trilhos. (...) Ao contrário dos dias comuns de contagioso estresse, a estação seguinte chegou demasiadamente depressa e algumas pessoas entraram. Entre elas, um rapaz de olhos e cabelos negros, pele morena e uma elegante harmonia entre a estatura e sua posição diante de mim. Estava perto demais para que eu me deixasse olhar por mais de cinco segundos. Mas os meus olhos castigados precisavam daquela liberdade. (...) O rapaz talvez sentisse a mesma necessidade. Tentou disfarçar que a janela daquela alma desconhecida não sentia o mesmo interesse, mas assim como eu, não conseguiu por muito tempo e voltou a olhar-me de frente. Entre o flerte, o som do metrô e as pessoas que entravam e saiam do vagão, uma voz mecânica anunciava as estações que se aproximavam. Deus, como quis que meu destino demorasse como nos dias comuns! Por um momento quis que fosse uma segunda-feira insana e eu não tivesse como escapar dali. Quis que entre nós não existisse vazio, mas pessoas para nos empurrar em direções idênticas. Cheguei a esquecer por completo que estava acordada, que tinha um destino e pessoas a minha espera. (...) O rapaz começou a caminhar. Atravessou o pequeno vazio que nos separava e sentou-se ao meu lado. Estávamos como os casais que citei ainda a pouco, ocupando os assentos reservados por capricho ou involuntária vontade de estar mais perto. Senti o meu coração esquentar, apesar do frio artificial. Minha mente agora estava em completa desordem, muito pensamento pra pouco tempo e espaço. Quis abrir a boca e bocejar, em sinal de completa indiferença, mas as aulas de teatro que cancelei nas vésperas do início me fizeram a falta maior. Não consegui disfarçar, não consegui acalmar minha respiração, tampouco olhar para o lado oposto do meu parceiro de assento. O que eu poderia fazer? Dar um assunto a aquela oportunidade e correr o risco de congelar ainda mais o oxigênio? Mudar de lugar e despertar as ideias que ainda não foram acesas? Por que ele não bocejava? Por que não me perguntava a hora ou me entregava em uma bandeja de prata qualquer desculpa mal pensada? Comecei a construir um castelo de suposições, que veio abaixo tão mecanicamente quanto a voz que calou o já silencioso impulso. "Próxima estação Sumaré." (...) Nossa respiração perdeu a sincronia. O rapaz deu um suspiro de leve e levantou-se. As portas do vagão se abriram e depois do último olhar trocado, deixou comigo um sorriso que escapou meio sem graça. Nunca mais voltei a vê-lo.

Voando com os pés no chão

A vida as vezes nos deixa sem palavras, e nos surpreende muito com seus altos e baixos. Quando achamos que está tudo de cabeça para baixo tudo errado, a vida começa a colocar cada coisa no seu lugar, tudo como deve ser. Nessas últimas semanas descobri que meu lugar é do seu lado. Cuidando de você e te protegendo, tentando te mostrar um outro lado da vida, te mostrar que as coisas são simples e realmente acontecem se você se esforçar. Se você acha que estava no fundo do poço se enganou, porque sempre há uma mãozinha nos segurando. Dessa vez foi a minha, e te garanto que nunca mais vou soltá-la. Confie em mim, me dê sua mão e vamos voar rumo ao horizonte, junto com as gaivotas sobrevoar o mar, e conhecer tudo de belo que nessa vida existe. Vamos de encontro ao inesperado, sentir novas sensações e descobrir novos pensamentos. Vamos viver junto hoje o que pensamos ter ficado para trás, aquele sentimento lindo e gostoso que é o amor.
Músicas: "Accidentally in Love - Couting Crows" / "Kelsey - Metro Station"
Palavras: "Mesmo, mesmo!"
Sentimentos: Amor e Felicidade.
Lugares: Minha mente e meu coração.

Tudo isso ainda é pouco perto do que está por vir. Te amo Bo. Bjos Amor.

By Leandro Martins.