Foi lá pelo mês de agosto, quando Bucareste chegou aos seus 35 °C em uma tarde lavada de sol, que desembarquei em Henri Coanda. O meu amigo Arsenie já estava me esperando com uma caixa nas mãos e um sorriso bem largo no rosto. Há alguns meses conversávamos pela Internet e ele me contava o quão encantadora era a "Pequena Paris" onde morava desde bebê, quando a mãe brasileira casou-se com um cara romeno bem de vida. "Frumoasa Mea!" ele gritou! Corri para abraçá-lo e quase o fiz derrubar a caixinha que trazia nas mãos. Nos olhamos por alguns minutos, risonhos, felizes, bobos pra ser bem sincera. Eu estava ali, ouvindo o meu amigo me chamando de "minha linda" naquele idioma tão bonito. E ele também era tão bonito (!). Foi como um sonho bem caprichado e talvez realmente fosse.
Saímos do aeroporto em chamas, contentes por estarmos ali, juntos. O ônibus 783 chegou em menos de quinze minutos e lá fomos os dois, com os olhos ainda brilhantes, rumo ao doce que era a capital. No caminho, Arsenie me deu a caixinha que comentei nas primeiras linhas. Estava recheada de chocolates e tinha as cores da bandeira da Romênia, era pintada a mão e escondia um fundo falso pra guardar algum segredo. Nos deliciamos durante os sessenta minutos de viagem e quase não sobrou espaço para a farinha de milho com queijo que a mãe do Arsenie fez para a minha chegada. Seu nome, Regina. Era bonita, morena, nova e perfumada. Um amor de pessoa, brasileira como ela só, ficou o tempo todo me fazendo perguntas: "E a violência? Diminuiu?", "A Dercy ainda não morreu?" "Eu tenho saudades de Ubatuba, acredita?" E ria.
Ficamos muito pouco dentro de casa, apesar de ser uma grande e adorável casa. Arsenie queria me mostrar de tudo um pouco e eu também queria ver. Lembro-me da primeira noite em Bucareste, quando ainda no taxi começamos uma festa ao som de Dragostea Din Tei e Despre Tine, as duas únicas músicas que eu sabia cantar em romeno. Fomos ao Krisal Glam Club, um lugar com boa música e gente boa. Muito parecido com um bar que frequentei ano passado e que hoje está fechado, infelizmente.
Passei quase quinze dias na "Paris" do meu amigo Arsenie e saboreei cada pedacinho daquele sudeste abafado. Fomos ao teatro, alugamos uns filmes do tempo do Edward G. Robinson, fizemos piquenique e ainda tivemos tempo de ler poesias à beira do Rio Dâmbovita, lindos. Mas havia chegado a hora de ir embora. A despedida foi como toda despedida, inevitavelmente triste. Tive vontade de jogar o Arsenie dentro da minha mala (que não era pequena) e trazê-lo comigo para São Paulo. Mas fiquei imaginando a dona Regina louca de saudades do filho bonito e educado que ela teve e achei que seria justo apenas convidá-lo para passar as férias de inverno aqui pro lado de cá.
Ele aceitou o meu convite mas nunca apareceu. E até hoje eu não sei o que guardar no fundo falso da minha caixinha romena...
