6 de set de 2010

Un Capriccio de la Verdad

Na última semana de agosto, fui cair nas graças de mi Buenos Aires querido, aquele da linda canção de Carlos Gardel. Sai do Brasil fugindo de mim, arrastando uma mala com duzentas toneladas de dor. Adiantei o voo e consegui chegar ainda de dia. Em um frio e iluminado dia. Escorreguei tarde à dentro, ainda fugindo, no ônibus número 8, que levou duas horas para me arremessar à 9 de Julio e seus 140 metros de largura. Desci, na verdade, em um ponto da escura Avenida Hipólito Yrigoyen e logo que dei meus primeiros passos ouvi da esquina duas senhoras me dizendo Hola. Dali até à 9 de Julio, alguns homens de meia idade com cara de bolivianos me saudaram também, com ares de malícia. Fugi deles, fugi da escuridão da Avenida Hipólito e continuei fugindo de mim. Fui parar em um bar da apaixonante Avenida de Mayo, ali na altura do número 1200 e mandei descer uma Stella Artois bem gelada para a minha mesa. Escureci com Buenos Aires. Paguei com os primeiros pesos que eu havia trocado no aeroporto Ezeiza e lá se foram 10 deles. Segui para o Hostel Milhouse Avenue, mas antes de entrar, esperei para ver a cara de alguém que já estivesse lá dentro. A porta não demorou a abrir e sairam cinco garotos brancos, falantes, americanos com certeza. Entrei. Quieres que hable en inglés o espanõl? - o recepcionista me perguntou. Portunhol! - respondi. E sorrimos. As sete noites que dormi em Buenos Aires foram na cama de cima de uma das três beliches do quarto de meninas. Noites boas e outras nem tanto. Às vezes eu tossia, às vezes pensava demais e não conseguia dormir, às vezes eu dormia e tinha sonhos malucos, mas dormindo bem ou mal, eu sempre acordava com aquela paisagem seca e cinza da Avenida de Mayo. Não devia ser, mas era e na minha memória continua sendo, linda. Ali eu caminhava todos os dias antes de me aventurar no trânsito estúpido de Buenos Aires. Andava bem devagar, olhando com cuidado cada detalhe dos prédios, dos restaurantes, das pessoas que andavam mais rápido do que eu. Era sempre a mesma coisa: Com licença! Gracias! E a pessoa seguia apressada. Em uma tarde de terça-feira, minha caminhada me levou a Plaza de Mayo. Aconheguei minha curiosidade em um canto e fiquei de longe observando algumas crianças jogando futebol. Os rivais mais encantadoresdo mundo! Às vezes a bola caia perto de mim e eu chutava de volta, torto, mas chegava, sem abrir a boca. Fiquei imaginando o que eles diriam se me ouvissem falar em português. Imaginei uma discussão sobre quem era o melhor jogador do mundo e quando a noite começou a pintar o céu de preto eu fui pintar o meu sono na beliche de cima do quartinho do hostel. Nos demais dias conheci a rua Florida e suas lojas, troquei o passeio no Zoo por uma volta no cemitério da Recoleta (onde está sepultada Evita Perón), tirei uma foto do Obelisco, me emocionei diante da Casa Rosada e mandei postais que nunca chegaram. Meu último passeio foi em La Boca, onde conheci o estádio La Bombonera. Ali os fanáticos fazem milagre não caindo uns sobre os outros, enlouquecidos de paixão, pulando dentro de uma caixinha de bombom amarela e azul. Me despedi da Argentina em uma gélida manhã de sábado e pousei no Brasil em uma tarde suada de setembro. Desfiz minha mala de dor e descobri que mesmo fugindo, em Buenos Aires eu estava me encontrando, para a minha felicidade.

4 comentários:

Daniel Henrique disse...

inveja dessa sua viagem...
milagre vc atualizando isso aqui

;-)

Maay disse...

texto lindo, Buenos Aires, meu sonho owwn *_* me dá um autografo? rsrs ... fugir e se encontrar duas constantes na vida das pessoas .. espero que encontre sempre os melhores caminhos para sua vida .. um big beijo (L)

Nagela disse...

Belo conto...
Fico feliz de ler um texto seu depois de tanto tempo
Vamos voltar pra Buenas?

Bejo Bo

Jay A. disse...

Acho que na verdade estamos sempre fugindo de nós mesmos. Infelizmente é uma tarefa difícil e cansativa nos esconder de nós mesmos.
Seu texto ficou ótimo, você escreve realmente muito bem. E acrescentou as minhas idéias sobre a Argentina que o povo de lá é muito educado... ponto pra eles! (Embora ache essa rivalidade "de brincadeira" muito boba.)

Enfim, tô seguindo. E só pra constar te acho linda.