16/01/2011

Hoje eu pensei se não seria a hora de interferir nisso tudo aqui, escrito para mim. Deve ter alguma estrela ofuscada que não deixa o destino me arrastar pra minha felicidade perdida. Mas isso não é nenhum desespero, fica até bem longe disso. É só uma oração para se começar um texto. (...) Eu fico batendo nas minhas ideias, me perguntando se não seria perigoso demais tentar mudar o que a natureza das coisas acaba por definir. A gente acorda com o rosto marcado, sonolento, na maioria das vezes sem nada na cabeça, porque já estamos fazendo muita força só para sair da cama. E a gente sai e não sabe se volta. Não sabemos nem se vamos conseguir sair. E quando a gente sai, tem toda uma cidade-poesia estampada na matéria, fazendo com que cada um de nós nos deslumbremos ou nos desesperemos por estar diante de tanta pedra, de tanto sal. Mas é poesia, porque nessa cidade pra quem as estrelas brilham, a gente pode se debruçar no balcão de um bar, pedir um café ou um pedaço de qualquer coisa, virar para a direita e olhar dentro dos olhos do homem da nossa vida. Ou do homem de cinco ou seis meses da nossa vida. Ou a mulher de alguns anos da nossa vida. Ou pra ninguém. Nessa cidade-poesia, palco do seu e do meu destino, a gente pode abraçar uma árvore depois de perder. Não importa o que se perde, nem quem se perde. Dá pra subir no alto de um prédio e jogar lá de cima um monte de lembrança na cabeça dos outros. Dá pra fugir de um bando de monstro. Ou se render a eles, ver no que dá, o que se sente quando se é vítima e não o monstro da vida de alguém. Dá até pra morrer. Principalmente morrer. (...) E o que eu faço com essa ideia de que tem todo um rascunho feito pra minha vida? Eu não quero morrer sem saber o que é um amor recíproco, sem saltar de paraquedas, sem conhecer a Romênia, sem aprender a dançar tango. Se eu morrer antes de tudo isso, vai ser como se o meu destino estivesse mal escrito, em tortas linhas. Mas ao mesmo tempo, eu não posso ter tudo e preciso me conformar se amanhã nada disso fizer sentido. Mas até amanhã, eu preciso sobreviver a essa noite. O domingo ainda não acabou.

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