"(...) Entre o trem e a plataforma."

04/11/2009

Um rebanho de gente. Uma infinidade de corpos diferentes: gordos, magros, altos, baixos, coloridos e alguns transparentes. Ninguém consegue enxergar o chão com tantos pés se arrastando juntos. As pessoas mal conseguem respirar. Sobrevivemos inalando todo o odor trazido pelo vento que o metrô joga violento em nossos rostos. Às vezes conseguimos identificar um perfume de algum conhecido nosso e acredite, no meio de todo aquele caos, nos rendemos à um momento de nostalgia. Nos apaixonamos, choramos inconcientemente ou abrimos um sorriso idiota, que se por ventura alguém enxergar; vai rir também, sem entender. A chegada do metrô é marcada por empurrões que podem ser classificados um por um: Tem aquele empurrão mais tímido, quando nosso colega de amasso vai se infiltrando aos poucos, com delicadeza e aparentando no olhar aquele estresse mais discreto. Tem o empurrão natural, movido ou por extinto ou pelas pessoas que estão atrás, que como um bom conselho, nos faz seguir em frente. E não podemos esquecer do empurrão violento, que nos remete ao mais profundo desprezo, à calorosa raiva e a indignação momentânea (ou eterna) por ter de voltar para casa com uma marca dolorida na pele. Entretanto, apesar de todo transtorno para ir ao trabalho ou para retornar ao meu doce lar, ao menos as minhas viagens são também muito interessantes. Aproveito os minutos nos vagões para apreciar um som sincronizado. Chega de barulho! Canto junto, às vezes... Também me aproveito dos livres minutos para observar algumas linhas de um livro sobre reencarnação. Só observo. Ler não consigo. E faço do tempo um suporte para aconchegar alguns sonhos que no sono cansado da noite não tenho forças para sonhar. De repente estou em lugar nenhum, com céu, pessoas não estressadas, oxigênio e perfume. Lá o tempo passa mais rápido. Um dia inteiro cabe em um único sonho. Dá tempo de contar e ouvir alguns segredos. Fazer uma caminhada sem bruscos passos. Apreciar a beleza daquele lugar inexistente e guardar cada detalhe pra recordar depois, no plano de átomos e vagões. Um dia inteiro se passa em aproximadamente quarenta minutos. Dá tempo de existir, apesar das emoções subjetivas. E quando o sono da viagem é interrompido pela Voz Robótica do maquinista, sinto como se realmente tudo aquilo tivesse acontecido. As experiências do dia se juntam com as experiências do sonho. Deus, como isso é possível? Acabo vivendo duas vezes e termino o dia ainda mais cansada! (...)

10 comentários:

Thainá Vivas disse...

hahahaha! É sim! Descreveu bem!
Estava com saudades dos seus textos, vc sumiu moça!
Bjão!
Não some denovo! ;D

Jéssica disse...

Interessante essa idéia de dormir profundamente e, ao sonho ser interrompido, acabar vivendo duas vezes. Acho que é por isso que quando durmo no ônibus e acordo com algum solavanco ou por um susto, fico mais cansada.

Há alguém vivendo sobre mim?

Louco, mas gostei :D

;*

Fe disse...

adoreei!
Realmente, as vezes a gente acaba vivendo duas vezes mesmo. A vida real e a dos sonhos. Eu, pelo menos, sou assim.

Estava com saudades dos seus textos! bjsbjs.

Duanny!. disse...

Bruna!
que saudade de você moça.
gostei do texto, vontade de ter na blogosfera novamente!
*--*

dreamsaboutme disse...

Isso me lembra um filme maravilhoso e pouco divulgado que assisti.." Antes que o dia termine". Os sonhos, o tempo, as escolhas..tudo isso rende a nossa própria vida! Adorei seu texto! Beijos

Fábio Ricardo disse...

O melhor mesmo é viver essas vidas inventadas, que nos atormentam a cabeça e jogam um sorriso bobo na nossa cara.

Bruna Bianconi disse...

HAHAH Bru que saudade que eu tava de ler seus texto, ótima descrição me senti na sua pele :]

Beijos cat :*

Camila disse...

pelo menos tem qe arrumar algo de bom para fazer em meio esses empurrões :)

bejos

Daniel Henrique disse...

por aqui nem tem metro, mas empurroes não faltam. e o pior é que sempre são homens a me empurrar ahahahh

bjo, bb

Thataah disse...

Nunca peguei um metrô tão lotado. Mas normalmente sonho assim, em qualquer lugar que seja.
Um mínimo espaço para me encostar e lá estou eu sonhando e me imaginando em outra cena, outra paisagem e outra vida. Não me deixa cansada, até me anima a continuar o resto do dia. Tem um dom lindo de escrever, deveria fazer mais vezes. Não suma.
Beijos flor, até a próxima.